fevereiro 20, 2011

Libertação


Era 14 de fevereiro, Valentine’s day em muitos países, dia que deveria marcar o amor, o recomeço, a paz; mas, foi na verdade dia de perceber e sentir tristeza, mágoa, decepção e indiferença, muita indiferença. O coração estava aos pedaços, implorando um pouco de amor,e todo amor lhe fora rejeitado, da pior forma possível.

Era o fim. O que temia finalmente chega, era o fim de tudo. Desorientada, perdida, acorrentada, sangrando, aos pedaços. Toda dor aparece de forma tão intensa que parece não ter fim, mas era chegado o fim de tudo, e a alma precisava de libertação; chega de dor, não quero essa dor, não suporto. Já não sentia, já não via, já não existia, o coração não batia, o cérebro não comandava o corpo, as lágrimas não cessavam... Dor era tudo que o corpo conseguia sentir, apenas isso, nada mais.

E numa luta desesperada, a mente lhe traz a solução... Todos aqueles remédios pareciam chamá-la. A morte, ela liberta. E tudo soa muito simples, a solução fora encontrada, não haverá mais dor. Vem a primeira dose, a mente acha pouco, o corpo precisa de mais, dobra-se a quantidade. O efeito é bom, calma, paz, parecia ter conseguido o fim da dor.

O coração que parecia estar parado bate descompassado da mesma forma que era com a maldita paixão, sim, maldita! Ela está trazendo o fim da minha vida. O coração bate cada vez mais forte... Taquicardia, mãos geladas, corpo trêmulo, e a dor, maldita dor que não passa; o corpo treme sem parar, as pessoas olham curiosas, desespero no olhar, comentários...

– Minha aparência deve estar péssima!

Todas aquelas luzes, todas aquelas pessoas...

A Morte finalmente aproxima-se, calma e tranquila, como sempre esperei, por toda minha vida... Vida? Que vida? Era realmente o fim, o doce fim de tudo. Então em toda minha fraqueza humana, temo, pela primeira vez sinto medo, a Morte sorri para mim e tento fugir, fingir. Nada adianta, ela se aproxima cada vez mais, e involuntariamente uma confissão

- Tomei muitos remédios, irei morrer.

Sou levada a outra sala, ouço o que falam. Palavras inúteis. E a dor continua, tão forte quanto antes. Tentam salvar o que ainda me resta de vida, meu corpo sente dor, muita dor... Tudo se fecha ao meu redor e aquele tubo entrando pelo nariz parece ferir tudo por dentro; comparo as dores, esse tubo machucando é a menor delas. Retiram tudo que havia no corpo, e a dor agora se mistura. Mas, por que não retiram também a outra dor? Mais palavras, mais inutilidade.

Fracassei, permaneço viva. Conseguiram retirar os remédios; as agulhas e o tubo vão tentando curar o corpo. E a dor também diminui. A Morte se despede triste,e a vejo partir, com a promessa de nos encontrarmos em outro momento. Droga! Aquele tubo, aquelas luzes, agulhas, pessoas... Me fizeram querer que ela fosse embora, e ela se foi. Deixou a dor, já diminuída, cansada de tanto fracasso na vida, ela também se oculta, parece decepcionada.

O corpo agora precisa descansar, não eternamente como a mente desejou, mas o descanso daquele lugar horrível em que estávamos, daquela situação pela qual tivemos que passar e sobreviver. Descanse meu querido, descanse. A nossa querida Morte não demora a voltar, e nossa dor permanece para te fazer sentir, descansar é o que resta, até que essa loucura resolva nos deixar em paz.